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24 de setembro de 2010




Umberto Eco

Como escrevo



Os inícios remotos

    Como autor de obras narrativas, sou um sujeito bastante anômalo. Com efeito, comecei a escrever contos e romances entre os oito e quinze anos, depois parei para recomeçar somente às vésperas dos cinqüenta. Antes dessa explosão madura de imprudência, tive mais de trinta anos de presumido pudor. Eu disse “presumido”. E explico. Vamos por ordem, ou seja, como é meu costume narrativo, dando um passo atrás.
    Comecei a escrever romances assim. Pegava um caderno qualquer e escrevia o frontispício, dando título. Depois escrevia embaixo o nome do editor, que era a Tipografia Matenna. Procedia então à colocação, a cada dez páginas, de uma ilustração, do tipo daquelas de Delia Valie ou Amatto.
    A escolha da ilustração determinava a história que eu poderia construir. Desta, eu escrevia algumas páginas do primeiro capítulo. Mas, para fazer algo de editorialmente correto, escrevia em letra de fôrma, sem poder permitir-me correções. Óbvio que, depois de algumas páginas, abandonava a empresa. Assim fui, naquela época, autor apenas de grandes romances incompletos.
    Desta produção (perdida em alguma mudança) conservo somente uma obra acabada, mas de gênero incerto. (...)Daí a idéia de escrever (...) o diário de um mago Pirimpimpino que se apresentava como descobridor, colonizador e reformador de uma ilha no Oceano Glacial Ártico, a Ghianda, cujos habitantes adoravam o deus Calendário. Este Pirimpimpino anotava dia a dia, e com grande pedantismo documental, fatos e (eu diria hoje) estruturas sócio-antropológicas de seu povo, entremeando, porém, estas páginas de diário com exercícios literários. (...)
    De resto, o narrador descrevia (e desenhava) a ilha sobre a qual reinava, bosques, lagos, costas e regiões montanhosas, entretinha-se com as próprias reformas sociais, com os ritos e mitos de seu povo, apresentava os próprios ministros, falava de guerras e de pestes... O texto alternava-se com desenhos e o conto (que não respondia às regras de nenhum gênero) desaguava na enciclopédia — e com o distanciamento pode-se ver como as audácias infantis podem determinar as fraquezas da idade adulta. (...)
    Depois daquelas experiências, decidi que deveria me dedicar aos quadrinhos, e cheguei a terminar alguns. Se naquela época existissem fotocopiadoras, teria feito uma ampla distribuição; (...). Na escola, eu escrevia narrativas porque na época as “redações” (de argumento obrigatório) foram substituídas pelas “crônicas” (nas quais tínhamos que contar livremente trechos de vida). Eu era excelente em esboços humorísticos.(...) Entre 1944 e 1945 ocupei-me de épica, com uma paródia da Divina Comédia. (...)
    Aos dezesseis anos, nasceu o amor pela poesia, devorava os herméticos. No arco de pouqufssimos anos, decidi que minha poesia tinha a mesma origem funcional e a mesma configuração formal que a acne juvenil. Daí a decisão (mantida por um trintenário) de abandonar a escrita dita criativa e de limitar-me à reflexão filosófica e à atividade ensaística.


O ensaísta e o narrador

    Decisão pela qual, durante trinta e poucos anos, nunca sofri. Quero dizer, não fui daqueles condenados a escrever de ciência com o desejo ardente de passar à arte. Considerava-me completamente realizado assim, aliás, considerava com um certo desdém platônico aos poetas, prisioneiros de sua mentira, imitadores de imitações, incapazes de alcançar aquela visão da idéia da hiperabundância com a qual — filósofo — eu sentia ter casto, pacato e cotidiano comércio.
    De fato, percebo agora, eu satisfazia nesse meio-tempo uma paixão narrativa, mas sem me dar conta e de três formas. Antes de tudo, através de um exercício constante da narratividade oral (fizeram-me muita falta os filhos crianças, quando cresceram, porque não podia mais contar-lhes fábulas). Em segundo lugar, jogando com as paródias literárias. E por fim fazendo de cada ensaio crítico uma narração. Devo explicar esse ponto, pois considero essencial, seja para entender minha atividade ensaística ou o meu (tardio) futuro de narrador.
    Quando escrevi minha tese de graduação, intrigou-me uma objeção do segundo relator, que me disse: “você trouxe à cena as várias faces de sua pesquisa como se tratasse de uma investigação, anotando até mesmo as pistas falsas, as hipóteses que depois descartaria; enquanto um estudioso maduro consuma tais experiências, mas restitui a público (na redação fmal) apenas as conclusões”. Reconheci que minha tese era exatamente como ele dizia, mas não o via como um limite. Mais, foi justamente naquele momento que me convenci que toda pesquisa deve ser “contada” deste modo. E assim acredito ter feito com todas as minhas obras ensaísticas seguintes. Podia, portanto, ficar tranqüilamente sem escrever histórias, pois satisfazia efetivamente minha paixão narrativa de outra maneira.


De onde se parte?

     Entre os 46 e os 48 anos, escrevi o meu primeiro romance, O nome da rosa. Não tenho intenção de discutir as motivações que me levaram a escrever um primeiro romance: são múltiplas, provavelmente somam-se entre si e considero que afirmar que me deu vontade de escrever um romance é motivo mais do que suficiente.
    Uma das perguntas que me foram feitas foi sobre as fases que se seguem na geração de um texto. A pergunta, felizmente, pressupõe que a escritura atravesse fases. De hábito, os entrevistadores ingênuos oscilam entre duas persuasões que se contradizem entre si: uma, que um texto dito criativo desenvolve-se quase instantaneamente na chama mística de um arrebatamento de inspiração; a outra, que o escritor tenha seguido uma receita, uma regra secreta que é preciso desvelar.
    Não há regra, ou melhor, há muitas, variáveis e flexíveis; e não existe o magma da inspiração. Mas é verdade que há uma idéia inicial e que existem fases muito precisas de um processo que se desenvolve pouco a pouco.
    Os meus três romances nasceram todos de uma idéia seminal que pouco mais era que uma imagem: aquela que tomou conta de mim e que deu-me vontade de seguir adiante. O nome da rosa nasceu quando fui invadido pela imagem do assassinato de um monge em uma biblioteca. (...) Não sei. O fato é que aquela imagem, do monge assassinado durante a leitura, em um determinado momento parecia pedir que lhe construísse algo em tomo. O resto nasceu pouco a pouco, para dar sentido àquela imagem, inclusive a decisão de situar a história na Idade Média. De início pensei que deveria se desenrolar em nossos tempos; depois decidi que, já que conhecia e amava a Idade Média, melhor seria tomá-la teatro de minha história. Todo o resto veio por si, pouco a pouco, lendo, revendo imagens, reabrindo armários onde se acumulavam há 25 anos as minhas fichas medievais, escritas por motivos totalmente outros. (...)


Antes de tudo, construir um mundo

    Mas para onde caminha um romance? Eis aí o segundo problema,que considero fundamental para uma poétcia da narratividade. Quando, em uma entrevista, me fazem a pergunta: “Como o senhor escreveu o seu romance?”, em geral corto e respondo: “Da esquerda para a direita”. Mas aqui tenho espaço suficiente para dar uma resposta mais articulada.
    É que julgo (ou pelo menos pude compreendê-lo melhor agora, depois de quatro experiências narrativas) que um romance não é apenas um fato lingüístico. Um romance ( como qualquer narração que fazemos todo dia, contando porque chegamos atrasados naquela manhã ou como nos desembaraçamos de um importuno) usa um plano da expressão (as palavras, decerto, tão difíceis de traduzir em poesia porque nela conta também o seu som) para restituir um plano do conteúdo, ou melhor, aquele dos fatos narrativos. Mas no nível do conteúdo podemos distinguir ainda outras duas vertentes, a fábula e o enredo.
    A fábula da Chapeuzinho Vermelho é pura seqüência de ações, cronologicamente ordenadas: a mãe manda a menina para a casa da avó, a menina encontra o lobo (...). O enredo pode organizar tais elementos diversamente: por exemplo, o conto poderia começar com a menina que vê a avó, espanta-se com suas feições, depois relembra o momento em que saiu de casa; ou com a menina que, de volta a casa sã e salva, e agradecendo ao caçador, conta à mãe as fases precedentes da fábula.
    A história de Chapeuzinho Vermelho é tão centrada na fábula que pode ser reconstituída de modo satisfatório em qualquer discurso, isto é, com qualquer expressão: através de imagens cinematográficas, ou em francês, ou em alemão, ou em quadrinhos.
    Ocupei-me muitas vezes com as relações intercorrentes entre expressão e conteúdo na oposição entre prosa e poesia. Por que “La Vispa Teresa avea tra l‘erbetta — al volo sorpresa gentil farfalleta?” Por que não a surpreendeu em uma moita ou entre flores? Mas naturalmente porque erbetta rima com farfalletta, enquanto espuglio teria que rimar com guazzabuglio. (...)
    Portanto, em poesia é a escolha da expressão que determina o conteúdo, enquanto em prosa é o contrário, é o mundo que se escolhe, e os eventos que nele desenrolam-se que nos impõem o ritmo, o estilo, as próprias escolhas lexicais.
    Todavia, seria errado dizer que em poesia o conteúdo (e com ele a relação entre fábula e enredo) é irrelevante. (...)


Do mundo ao estilo

    Uma vez desenhado este mundo, as palavras seguem e serão (se tudo vai bem) aquelas que aquele mundo, com os fatos que nele acontecem, exige. Por isso, em O nome da rosa o estilo é aquele — sempre homogêneo — do cronista medieval, preciso, ingênuo, estúpido, se necessário apagado (como pensaria um monge do século XIV). (...)


Como escrevo

    Pode-se compreender nesse momento o quanto são inúteis as perguntas do tipo “Inicia com notas, redige imediatamente o primeiro ou o último capítulo, escreve a caneta, a lápis, no computador?” Se se deve construir, dia após dia, um mundo, se se devem tentar infinitas estruturas temporais, se os gestos que os personagens fazem e devem fazer segundo a lógica do bom senso ou das convenções narrativas (ou contra as convenções narrativas) devem-se adaptar à lógica das restrições (repensando, apagando, refazendo continuamente), não existe um modo uniforme de se escrever um romance.
    Pelo menos para mim. Sei de autores que acordam às oito da manhã, põem-se à máquina de escrever das oito e meia às doze horas (nulla dies sine línea) e depois param e vão passear até de noite. Eu não. Antes de tudo, para escrever um romance, o ato de escrever vem depois. Primeiro, lê-se, preenchem-se fichas, desenham-se retratos de personagens, mapas dos locais e esquemas de seqüências temporais. (...)


O escritor e o leitor

    Porém, não gostaria que as minhas afirmações encorajassem logo uma outra, comum aos maus escritores: que você escreve apenas para você mesmo. Desconfiem de quem diz isso, é um narcisista desonesto.
    Só existe uma coisa que você escreve para si mesmo, e é a lista do supermercado. Serve para lembrar o que você tem que comprar, e quando as compras forem feitas pode ser destruída, pois não serve para mais ninguém. Qualquer outra coisa que se escreva, escreve-se para dizer alguma coisa a alguém.
    Só se escreve para um Leitor. Infeliz e desesperado aquele que não sabe se dirigir a um Leitor futuro.





IN: ECO, UMBERTO. Sobre a literatura.Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 277 a 305. Texto adaptado pela prof. Luciane Raupp, FACCAT, RS.





15 de setembro de 2010



Da conquista do principado
 por meio do crime

Mas como de cidadão comum da vida privada se chega também a príncipe de duas outras maneiras, as quais não dependem em absoluto da fortuna ou do valor, parece-me que não se deve deixá-las de lado, embora pudéssemos discorrer sobre uma dessas maneiras mais amplamente onde tratássemos das repúblicas. Tais maneiras consistem em atingir-se a condição de príncipe por qualquer meio criminoso e execrável ou em um simples cidadão tornar-se príncipe de sua pátria graças aos favores dos outros cidadãos. E, referindo-se à primeira maneira, apresentaremos dois exemplos, um antigo e outro moderno, sem expressar juízos porque considero que a quem os necessite bastará segui-los.
O siciliano Agátocles tornou-se rei de Siracusa oriundo não apenas da condição de cidadão qualquer, mas diretamente de condição baixa e vil. Filho de um oleiro, sempre foi em todas as fases da vida um celerado. Entretanto, sua vida de crimes foi acompanhada de uma tal força de espírito e de corpo que, ingressando no exército, fez carreira e tornou-se pretor de Siracusa. Estabelecido neste posto e tendo-se decidido a se tornar príncipe e conservar pela força, sem dever obrigação a ninguém, o poder que lhe havia sido concedido sob consenso e em entendimento acerca de seu plano com Amílcar, de Cartago, o qual guerreava na Sicília com suas tropas, reuniu uma manhã todo o povo e o senado de Siracusa como se fosse deliberar sobre coisas pertinentes à república, assuntos da administração ordinária. E a um sinal combinado fez com que seus soldados matassem todos os senadores e as pessoas mais ricas da cidade. Após o massacre, ele ocupou e conservou pela força o principado daquela cidade sem qualquer debate com os cidadãos.
Embora tenha sido derrotado duas vezes e finalmente sitiado pelos cartagineses, não foi só capaz de defender a cidade como, tendo deixado uma parte dos seus cuidando da defesa contra o cerco, com outra parte atacou a África e, em pouco tempo, libertou Siracusa do assédio e reduziu os cartagineses a uma situação tão penosa que estes foram obrigados a firmar um acordo com ele, segundo o qual se dariam por satisfeitos com a posse da África, deixando para Agátocles a Sicília.
Quem considerar, portanto, as ações e a vida de Agátocles, pouco ou nada verá que se possa atribuir à fortuna, visto que, como dissemos anteriormente, ele chegou à posição de príncipe não pelo favor de alguém, mas sim pelas graduações da carreira militar, conquistadas mediante mil esforços e perigos, tendo preservado o principado por ter sabido tomar decisões corajosas e arriscadas. Não se pode, por outro lado, chamar de valor o matar os concidadãos, trair os amigos, revelar-se sem fé, sem piedade, sem religião: por tais meios pode-se conquistar o poder, mas não a glória. Pois se considerarmos que o valor de Agátocles reside ao afrontar e safar-se dos perigos e sua grandeza de espírito, no suportar e superar adversidades, não se verá por que tenha que ser julgado inferior a qualquer excelente capitão. Todavia, sua bestial crueldade e sua desumanidade, acompanhadas de inúmeros crimes, não permitem que seja glorificado entre os homens mais ilustres. Não se pode, consequentemente, atribuir à fortuna ou ao valor aquilo que sem uma e outro foi por ele conseguido.
No nosso tempo, durante o papado de Alexandre VI, Oliverotto Euffreducci de Fermo, tendo ficado na infância órfão de pai, foi educado por um tio materno chamado João Fogliani e no início de sua juventude foi alistado nas tropas de Paulo Vitelli para que, preparado na disciplina atingisse uma excelente patente militar. Com a morte de Paulo Vitelli, colocou-se sob o comando do irmão de Paulo, Vitellozzo. Em pouquíssimo tempo, graças ao seu talento e à sua força de espírito e disposição física, tornou-se o primeiro homem de sua companhia. Mas visto que lhe parecia coisa servil permanecer sob o comando dos outros, planejou, com a ajuda de alguns cidadãos de Fermo ─ para os quais a servidão era mais cara do que a liberdade da pátria ─ e o favorecimento de Vitellozzo, ocupar Fermo. E ele escreveu a João Fogliani que, tendo estado muito tempo fora de casa, desejava voltar a vê-lo e à sua cidade e, de qualquer modo, verificar o seu patrimônio. E como se empenhava somente para adquirir honra, para que seus concidadãos vissem como não esbanjara o tempo, desejava chegar solenemente e acompanhado de cem cavaleiros, de seus amigos e servidores. Pedia ao tio que providenciasse para que os habitantes de Fermo o acolhessem condignamente, com o que ele não o honraria apenas, mas também a si mesmo, já que Oliverotto era seu discípulo.  
 João Fogliani, então, não poupou esforços para servir o sobrinho e, fazendo-o ser recebido com todas as honras pelos cidadãos de fermo, hospedou-o em sua casa. Transcorridos alguns dias, durante os quais devotou-se secretamente ao preparo daquilo que seria necessário ao seu futuro crime, organizou um banquete suntuoso para o qual convidou João Fogliani e todos os homens importantes de Fermo. Consumidas todas as iguarias e encerrados todos os entretenimentos usuais nesses banquetes, Oliverotto conduziu a conversação para certos assuntos sérios, como a grandeza e as realizações do papa Alexandre e César Borgia, seu filho. Tendo Fogliani e os outros respondido ao seu discurso, ele imediatamente se levantou, afirmando que se tratava de coisas a serem discutidas num local mais secreto e se dirigiu para um aposento, sendo seguido por João Fogliani e todos os outros cidadãos. Mal haviam se sentado e já alguns soldados saídos de seus esconderijos no aposento os matavam ─ João Fogliani e os outros.
Depois do assassinato, Oliverotto montou seu cavalo, correu pela cidade, apoderou-se desta pela força e assediou no palácio o supremo magistrado, tanto que por medo foram constrangidos a obedecê-lo e formar um governo do qual ele se fez príncipe. Mortos todos aqueles que por estarem insatisfeitos poderiam prejudicá-lo, fortaleceu-se com novas regras civis e militares, de modo que, no período de um ano em que manteve o principado, não somente conservou-se em segurança na cidade de Fermo como tornou-se também temido por todos seus vizinhos. E teria sido difícil afastá-lo do poder, do mesmo modo que fora a Agátocles, se não tivesse se deixado enganar por César Borgia, quando em Senigália, como mencionamos anteriormente, os Orsini e Vitelli foram capturados; aqui também apanhado um ano após o parricídio cometido, foi estrangulado com Vitellozzo, aquele que fora seu mestre em valentia e crime.
Alguém poderia perguntar como Agátocles e alguns outros semelhantes a ele, após inumeráveis traições e crueldades, puderam viver tanto tempo em segurança em suas pátrias e se defender dos inimigos externos sem que seus concidadãos conspirassem contra eles, enquanto muitos outros, através da crueldade, não puderam se manter no poder mesmo em tempos de paz, sem falar nos difíceis tempos de guerra. Acredito que isto esteja vinculado à crueldade mal ou bem empregada. Bem empregadas podem ser consideradas aquelas crueldades (se bem pode-se dizer do mal) que se fazem uma única vez dada a necessidade de pôr-se em segurança, sem nelas insistir posteriormente, buscando-se, ao contrário, assegurar aos súditos a maior quantidade possível de proveitos; mal empregada são aquelas crueldades que, a despeito de serem poucas no início, com o passar do tempo se multiplicam em lugar de cessarem. Aqueles que observam a primeira modalidade podem, com o auxílio de Deus e dos homens, encontrar para seus Estados alguma solução favorável, como fez Agátocles.  Para os outros a manutenção no poder é impossível.
Diante disso, cumpre observar que, ao conquistar um Estado, o conquistador deve avaliar rapidamente todas as violências que lhe são necessárias cometer e cometê-las todas de um só golpe para não ter que repeti-las todos os dias e poder, não as repetindo, tranquilizar os homens e conquistá-los beneficiando-os. Quem fizer de outra forma, seja por timidez, seja porque mal aconselhado, será obrigado a ter sempre o punhal à mão e não poderá jamais contar com seus súditos, estes não podendo, por sua vez, nele confiar devido às suas recentes e constantes violências. Pois as violências devem ser feitas todas em conjunto para que, dispondo-se de menos tempo para provar seu gosto, permaneçam menos amargas; os benefícios devem ser concedidos pouco a pouco para que sejam mais bem saboreados. E um príncipe deve, sobretudo, viver com seus súditos de modo que nenhum acontecimento, bom ou mau, o faça mudar, pois surgindo as necessidades nos tempos adversos, não te sobrará tempo para o mal; e o bem que tu fazes não te favorece, pois é considerado forçado e não te traz nenhum reconhecimento.






Capítulo VIII

10 de abril de 2010





Neal Cassady

O ritmo da escrita Beat


     Controlei este terror infantil na minha primeira viagem de trem, um instante antes de pular para dentro dele, segundos antes da partida, com meus braços ainda carregados de galinha frita fria, saída fresca da fazenda de tia Eva perto de Unionville. Tínhamos vindo no caminhão que transportava gasolina do primo Ryal, e então, por pura sorte, pegamos essa longa carona expressa, que rodou a noite inteira. Finalmente, numa cidade do centro de Kansas, o trem parou, e a maioria dos mais ou menos doze vagabundos amontoados no nosso vagão de carga concluiu corretamente que o suprimento de água da locomotiva tinha se acabado; assim, enquanto o tênder era enchido, diversos deles, meu pai inclusive, desapareceram por um caminho escuro numa busca apressada por água para todos nós bebermos. Embora sabendo que em poucos minutos uma locomotiva é reabastecida, eles sentiam-se obrigados a aproveitar essa oportunidade — provavelmente a única por um bom tempo  — de procurar um refresco para eles e para mim, “o coitado do guri”. Lu, em especial, sentia sede, consequência óbvia de toda aquela galinha salgada devorada em poucos minutos, e meus choramingos de protesto encontravam a simpatia dos homens de garganta seca, para quem minha presença  emprestava temporariamente a dignidade da motivação desinteressada, a tal ponto que, notando como meu ruidoso sofrimento dispensava seus próprios gemidos habituais, fiquei suficientemente consciente da minha própria importância para tentar controlar meus soluços.
     De repente, o vagão de carga começou a mover-se abaixo de mim. Esquecendo instantaneamente minha refletida determinação de acalmar o rosto contorcido, me voltei ansiosamente, dando as costas aos demais, para buscar na escuridío sinais do retorno do pai. Eles não apareceram, de forma que, à medida que o trem ia ganhando maior velocidade, eu estava de novo berrando de pé na porta. Logo estávamos indo depressa demais para esperar que qualquer cabecinha surgisse de dentro da noite e pulasse para o nosso vagão de carga, e os vadios, aparentemente conscientes de que eu poderia pular, juntaram-se uns aos outros para barrar meu caminho para a porta. Primeiro tive um espasmo suficientemente frenético para ser histérico, gemidos, uivos, etc.; depois, desabei no meu canto em soluços que vinham mais lentamente, e comecei a pensar no apuro em que me encontrava, pois, tendo perdido meu pai e estando certo de que ele nunca poderia voltar, me senti terrivelmente sozinho. Encadeados, dois pensamentos básicos gradualmente predominaram: como voltar para Denver só, e como absolver a minha culpa por esta catástrofe. Ali deitado, me esforcei para descongelar minha mente de seis anos e meio e vencer a preocupação de encontrar o caminho de casa. Ainda assim, nunca realmente formulei nada, uma vez que, geograficamente mal podia esboçar um plano, e, o tempo todo, para piorar, muitos pensamentos arrependidos me apunhalavam, tais como “se nós não tivéssemos ido, ou se voltássemos em segurança, eu juraria nunca mais beber água, mesmo com toda a sede”. Eu sabia o quanto isso era impraticável, porque então morreria, mas foi isso que escolhi e preferi deliberadamente assim, sentindo que tais extremos de alguma maneira contrabalançariam tudo para ter meu pai de volta. Também, desta forma, poderia ser perdoado pelo que eu considerava minha aflitiva culpa pela sede que, em suma, o havia afastado de mim. Naturalmente, os vagabundos tentaram me acalmar, mas eu rejeitava suas atenções de tal forma, que, embora parecesse uma teimosia normal, realmente espontânea provocada pela zanga, ela acabou desencadeando, depois de diversas horas de recusa contínua a qualquer consolo, um orgulho paradoxal de autoconfiança que finalmente venceu o meu medo o suficiente para permitir um sono entorpecido.
     Por milhas que para mim foram infindáveis, nosso trem seguiu roncando pela planície desolada, e já estávamos no fim do dia quando chegamos a Goodland, Kansas, e ele parou de novo. Eu tinha passado as horas desde o começo da aurora rolando sobre enormes folhas de papelão espalhadas em grossas pilhas ao longo de um dos lados do chão do carro de carga, e, quase recuperando um sono convulso, ainda me recusava a falar com os vadios que compartilhavam a cama comigo, por mais que eles tentassem se aproximar de mim. O trem tinha parado não fazia nem três minutos, comigo acordado apenas o suficiente para brincar com a idéia de sair para esticar as pernas, embora o temor de uma caminhada encabulada em meio àquelas figuras relaxadas que conversavam me cortasse. Não tinha me atrevido a levantar a cabeça quando, rápido e silencioso ao chegar de surpresa, meu pai me agarrou e me ergueu desajeitadamente curvado num longo abraço choroso! Nunca tinha me ocorrido que, ainda que o trem, saindo antes do esperado, o impedisse de retornar ao nosso vagão específico, ele poderia conseguir pegar um outro à frente do vagão de alojamento, e, na realidade, estar no mesmo trem o tempo todo.  Porém, talvez por medo de atravessar por cima de terrenos tão difíceis, como toras de madeira e maquinarias, talvez porque achasse que eu estaria bem sob os cuidados dos seus compadres, que deviam ter imaginado que ele estava no trem, e mesmo tivesse chegado a tempo de alcançá-lo, mas não podendo descer para o nosso carro com o trem em movimento, ele decidiu esperar por urna parada para poder retornar. Assim, me foi negado o berro reconfortante que poderia ter vindo minutos depois da malfadada parada para água. Se meu pai pelo menos desconfiasse que, estranhamente, dentre todos os pensamentos que a boa vontade deles produziu para me convencer de que ele me re-encontraria, os vagabundos não tinham dito urna só vez que havia a possibilidade dele ter pulado para dentro na parte de tras do trem! Meu espanto então, ja que mnguém tinha me falado dessa possibilidade, nem na realidade tive a idéia eu próprio, foi duplamente sentido quando os ouvi discutindo, desculpando-se com argumentos, a ocorrência dessa falta de raciocínio coletiva.


[...]


      Um acordo havia sido firmado: a partir de então eu ficaria com meu pai somente os noventa dias do verão, e com minha mãe durante o ano escolar, pois os que ganhavam dinheiro, Ralph e Jack, produzindo bebida clandestina prosperamente, tinham, na nossa ausência, feito com que ela se mudasse, com Jimmy e a bebê Shirley, para um apartamento maior, mas não muito melhor, num edifício na esquina da 26 com rua Champa. O prenúncio da minha transferência para esse novo tipo de combinação dupla ainda por vir chegou num dia, pouco tempo depois de nós voltarmos, quando os dois Irmãos Negros adentraram pelas portas do Metropolitan — sem dúvida pela primeira vez — ostensivamente para ver como eu estava passando. Meu pai imediatamente assumiu sua postura típica. De pé no saguão, diante de seus companheiros de álcool, e consciente de seus olhos atentos testemunhando a visita dos garotos crescidos, ele começou com a habitual bravata sobre filho — e já o tinha feito para muitos —, um relato dolorosamente orgulhoso, ainda que esquisito e vacilante pela ignorância, da minha bravura durante as complexidades da nossa bem-sucedida viagem de duas mil milhas. Deve ter sido o silêncio de meus irmãos que o enganou, e o fato deles terem ficado lá com sorrisos de filho para pai, deixando que o velho continuasse a falar assim, gratuitamente, por alguns minutos num raro show de amenidade social-pusilânime. Meu pai, tendo finalmente terminado o ingênuo conto de bravura infantil, iniciou um inocente monólogo de bêbado sobre as galinhas da tia Eva, quando todo o pensamento foi subitamente escorraçado de seu cérebro, no instante em que eles viraram a moeda da cena passando de dóceis filhos postiços para monstros bárbaros fingindo com horrorizada certeza que estavam no seu direito, e começaram a espancá-lo, revezando-se. Um o derrubava e ficava de pé sobre ele para que o outro o esmagasse contra o chão, o tempo inteiro empurrando-o no cacete para a saída, enquanto mantinham um papo cheio de injúrias, interrompido somente por risadinhas ocasionais e grunhidos de esforço. Finalmente pararam, mas só porque estavam com o braço cansado, sem fôlego, ou com os nós dos dedos doendo, com meu pai já apagado totalmente há muito tempo. Assim, com um último golpe para deixá-lo atravessado na porta, meus meio-irmãos desprezaram todos os covardes amigos vagabundos dele como se nem estivessem lá, todos eles parados de olhos arregalados e pregados em seus lugares, e me arrastaram, ainda levando o mesmo papo, para a minha mãe.




 

Trechos extraídos de:


"O Primeiro Terço", Neal Cassady. 
L&PM POCKET.







3 de abril de 2010


Charles Bukowski





       O Mercado dos Trabalhadores Rurais ficava na Fifth Street com a San Pedro. Você tinha que se apresentar às cinco da manhã. Ainda estava escuro quando eu cheguei lá. Alguns homens estavam sentados, outros de pé, enrolando seus cigarros e conversando baixinho. Tais lugares sempre têm o mesmo cheiro — suor velho, urina e vinho barato.
       No dia anterior, eu tinha ajudado Jan a se mudar para a casa de um corretor de imóveis, um gordo que morava na Kingsley Drive. Fiquei escondido num canto do saguão e a vi beijá-lo. Logo os dois entraram no apartamento dele e a porta se fechou. Retornei sozinho para a rua, notando pela primeira vez os papéis esvoaçantes e o lixo que se acumulava pelas calçadas. Haviamos sido despejados de nosso apartamento. Eu tinha US$ 2,08. Jan me prometeu que esperaria minha sorte mudar, mas era dificil de acreditar nisso. O nome do corretor era Jim Beinis, tinha um escritório na Alvarado Street e era cheio da grana.
       — Odeio quando ele trepa comigo — ela tinha dito.
       Agora, provavelmente, ela estava dizendo a mesma coisa de mim.
       Laranjas e tomates eram empilhados em diversas caixas e, aparentemente, eram de graça. Apanhei uma laranja, fiz um buraco com os dentes na casca e chupei o suco. Eu havia exaurido os meus beneficios do seguro-desemprego desde que deixara o Hotel Sans.
       Um cara de cerca de quarenta anos veio em minha direção. Seu cabelo parecia morto, de fato nem parecia cabelo humano, lembrando mais fios de linha. A luz branca que vinha do teto lhe atingia em cheio. Ele tinha verrugas marrons na cara, muitas delas concentradas ao redor de sua boca. Um ou dois pêlos negros brotavam de cada uma delas.
       — Como vai?
       — Tudo bem.
       — Está a fim de um boquete?
       — Não, acho que não.
     — Estou com tesão, cara. Estou excitado. Sei realmente fazer um.
       — Escute, sinto muito. Não estou a fim.
       Ele se afastou tomado de fúria. Dei uma olhada pelo galpão. Havia cerca de cinquenta homens esperando. Havia dez ou doze funcionários do governo sentados em suas mesas ou caminhando ao redor. Eles fumavam e pareciam mais preocupados que os vagabundos de rua. Os funcionários estavam separados dos vagabundos por uma sólida tela de metal entrelaçada, que ia do teto ao chão. Alguém a tinha pintado de amarelo. Era um amarelo bastante apagado.
       Quando um dos funcionários tinha que fazer uma transação com um dos vagabundos, ele destravava e corria uma portinhola de vidro presa à tela. Quando a questão da papelada se resolvia, o funcionário fechava a portinhola, trancava-a por dentro e, toda vez que isso ocorria, a esperança parecia desaparecer. Todos despertávamos quando a portinhola deslizava, a chance de cada homem era a chance de todos nós, mas, quando ela se fechava, a esperança evaporava. Então restava apenas olhar para as caras uns dos outros.
       Na parede dos fundos, atrás da tela amarela e dos funcionários, havia seis quadros-negros. Havia gizes brancos e apagadores, como na escola. Cinco dos quadros estavam vazios, embora ainda fosse possível enxergar os resquícios das mensagens anteriores, de trabalhos há muito haviam sido preenchidos, e naquele momento perdidos para sempre, ao menos no que nos dizia respeito.
Havia uma mensagem no sexto quadro:

PRECISA-SE DE COLHEDORES DE TOMATES
EM BAKERSFIELD

       Eu pensara que as colheitadeiras automáticas haviam extinguido esse trabalho. No entanto, ali estava o anúncio. Seres humanos, aparentemente, saem mais barato que máquinas. E máquinas quebram. É isso.
       Dei uma olhada ao redor do recinto — não havia orientais nem judeus, pouquíssimos negros. A maioria dos vagabundos ou era composta de brancos pobres ou de mexicanos. Os dois negros, naquele momento, já iam altos no vinho.
       Então um dos funcionários se pós de pé. Era um homem grande, com uma proeminente barriga de cerveja. O que você podia notar era sua camisa amarela com listras pretas verticais. A camisa estava esturricada, e ele usava braçadeiras — para segurar suas mangas como nas fotografias tiradas em 1890. Ele se aproximou e destravou uma das janelas de vidro na tela amarela.
      — Muito bem! Há um caminhão lá nos fundos recolhendo gente pra trabalhar em Bakersfield!
       Correu a janela, trancou-a, sentou-se à sua mesa e acendeu um cigarro.
       Por um momento, ninguém se mexeu. Então, um a um, aqueles que estavam sentados nos bancos começaram a se levantar, os rostos sem expressão. Os homens que já aguardavam de pé deixaram cair seus cigarros e os apagaram cuidadosamente com as solas de seus sapatos. Depois disso, começou um êxodo vagaroso e geral; todos saíram em fila por uma porta lateral que dava para um pátio cercado.
       O sol nascia. Na verdade, olhávamos pela primeira vez uns para os outros. Uns poucos homens sorriam ao reconhecer um rosto familiar.
       Permanecemos enfileirados, lutando para conseguir chegar até a caçamba, o dia começando a raiar. Era hora de partir. Subíamos em um caminhão de exército usado na Segunda Guerra Mundial, a cobertura de lona toda rasgada. Fomos avançando, aos encontrões, mas ao mesmo tempo tentando manter a mínima polidez. Então, cansado das cotoveladas, dei um passo para o lado.
       A capacidade do caminhão era admirável. O grande capataz mexicano acompanhava a tudo em um dos lados da traseira da caçamba, acenando sem parar:
       — Isso aí, isso aí, vamos lá, vamos lá...
       Os homens avançavam devagar, como se entrassem na boca de uma baleia.
       Pela lateral do caminhão eu podia ver os rostos deles; falavam baixinho e sorriam. Sentia a um só tempo repugnância por aquelas pessoas, mas também minha solidão. Então decidi que era capaz de colher tomates. Decidi embarcar. Alguém bateu em mim pelas costas. Era uma mexicana gorda e ela parecia bastante sentimental. Agarrei-a pelos quadris para ajudá-la a subir. Ela era muito pesada, difícil de manejar. Finalmente encontrei apoio em algo; aparentemente uma de minhas mãos se atolou no fundo das suas virilhas. Consegui colocá-la para dentro. Então fui em busca de um apoio para também subir. Eu era o último. O capataz mexicano pôs o pé sobre minha mão.
       — Não — ele disse —, já temos gente que chega.
       O motor do caminhão deu a partida, engasgou e apagou. O motorista tentou novamente. Desta vez pegou, e eles seguiram em frente.


Factótum, Charles Bukowski. L&PM POCKET.




26 de novembro de 2009



HOMENAGEM




Natália Correia




Queixa das Almas
Jovens Censuradas




Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola


Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade


Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência


Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro


Penteiam-nos os crâneos ermos
Com as cabeleiras das avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós


Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa historia sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra que o medo


Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro


Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco


Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura


Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante


Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte




27 de agosto de 2009



HOMENAGEM


Alexandre Herculano








O Romântico Historiador





III

O POETA





Nenhum de vós ouse reprovar os hinos compostos em louvor de Deus.
Concílio de Toledo IV, Cân. 13.



       Muitas vêzes, pela tarde, quando o sol, transpondo a baía de Cartéia, descia afogueado para a banda de Melária, doirando com os últimos esplendores os cimos da montanha piramidal do Calpe, via-se ao longo da praia vestido com a flutuante estringe o presbítero Eurico, encaminhando-se para os alcantis aprumados à beira-mar. Os pastôres que o encontravam, voltando ao povoado, diziam que, ao passarem por êle e ao saudarem-no, nem sequer os escutava, que dos seus lábios semi-abertos e trêmulos rompia um sussurro de palavras inarticuladas, semelhante ao ciciar da aragem pelas ramas da selva. Os que lhe espreitavam os passos, nestes largos passeios da tarde, viam-no chegar às raízes do Calpe, trepar aos precipícios, sumir-se entre os rochedos e aparecer, por fim, lá ao longe, imóvel sôbre algum píncaro requeimado pelos sóis do estio e puído pelas tempestades do inverno. Ao lusco-fusco, as amplas pregas da estringe de Eurico, branquejando movediças à mercê do vento, eram o sinal de que êle estava lá; e, quando a lua subia às alturas do céu, êsse alvejar de roupas trêmulas durava, quase sempre, até que o planêta da saudade se atufava nas águas do Estreito. Daí a poucas horas, os habitantes de Cartéia que se erguiam para os seus trabalhos rurais antes do alvorecer, olhando para o presbitério, viam, através dos vidros corados da solitária morada de Eurico, a luz da lâmpada noturna que esmorecia, desvanecendo-se na claridade matutina. Cada qual tecia então sua novela ajudado pelas crenças da superstição popular: artes criminosas, trato com o espírito mau, penitência de uma abominável vida passada, e, até, a loucura, tudo serviu sucessivamente para explicar o proceder misterioso do presbítero. O povo rude de Cartéia não podia entender esta vida de exceção, porque não percebia que a inteligência do poeta precisa de viver num mundo mais amplo do que êsse a que a sociedade traçou tão mesquinhos limites.
       Mas Eurico era como um anjo tutelar dos amargurados. Nunca a sua mão benéfica deixou de estender-se para o lugar onde a aflição se assentava; nunca os seus olhos recusaram lágrimas que se misturassem com lágrimas de alheias desventuras. Servo ou homem livre, liberto ou patrono, para êle todos eram filhos. Tôdas as condições se nivelavam onde êle aparecia; porque, pai comum daqueles que a Providência lhe confiara, todos para êle eram irmãos. Sacerdote do Cristo, ensinando pelas largas horas de íntima agonia, esmagado o seu coração pela soberba dos homens, Eurico percebera, enfim, claramente, que o Cristianismo se resume em uma palavra — fraternidade. Sabia que o Evangelho é um protesto, ditado por Deus para os séculos, contra as vãs distinções que a fôrça e o orgulho radicaram neste mundo de lôdo, de opressão e de sangue; sabia que a única nobreza é a dos corações e dos entendimentos que buscam erguer-se para as alturas do céu, mas que essa superioridade real é exteriormente humilde e singela.
       Pouco a pouco, a severidade dos costumes do pastor de Cartéia e a sua beneficência, tão meiga, tão despida das insolências que costumam acompanhar e encher de amargor para os miseráveis a piedade hipócrita dos felizes da terra; essa beneficência que a religião chamou caridade, porque a linguagem dos homens não tinha palavra que exprimisse rigorosamente um afeto revelado à terra pela vítima do Calvário; essa beneficência que a gratidão geral recompensava com amor sincero tinha desvanecido gradualmente as suspeitas odiosas que o proceder extraordinário do presbítero suscitara a princípio. Enfim, certo domingo em que, tendo aberto as portas do templo e havendo já o salmista entoado os cânticos matutinos, o ostiário buscava cuidadoso o sacerdote, que parecia ter-se esquecido da hora em que devia sacrificar a hóstia do Cordeiro e abençoar o povo, foi encontrá-lo adormecido junto à sua lâmpada ainda acesa e com o braço firniado sôbre um pergaminho coberto de linhas desiguais. Antes de despertar Eurico, o ostiário correu com os olhos a parte da escritura que o braço do presbítero não encobria. Era um nôvo hino no gênero daqueles que Isidoro, o célebre Bispo de Híspalis, introduzira nas solenidades da Igreja goda. Então o ostiário entendeu o mistério da vida errante do pastor de Cartéia e as suas vigílias noturnas. Não tardou em espalhar-se na povoação e nos lugares circunvizinhos que Eurico era o autor de alguns cânticos religiosos transcritos nos hinários de várias dioceses, e uma parte dos quais brevemente foi admitida na própria Catedral de Híspalis. O caráter de poeta tornou-o ainda mais respeitável. A poesia dedicada quase exclusivamente entre os Visigodos às solenidades da igreja, santificava a arte e aumentava a veneração pública para quem a exercitava. O nome do presbítero começou a soar por tôda a Espanha como o de um sucessor de Dracônio, de Merobaude e de Orêncio.



IV

RECORDAÇÕES





Onde é que se escondeu enfraquecida a antiga fortaleza?
Sto. Eulógio
     Memorial dos Sani., L. 3°.




Presbitério de Cartéia. À meia-noite
dos idos de dezembro da era de 748.



1


       Era por uma destas noites vagarosas do inverno em que o brilho do céu sem lua é vivo e trêmulo; em que o gemer das selvas é profundo e longo; em que a soledade das praias e ribas fragosas do oceano é absoluta e tétrica.
       Era a hora em que o homem está recolhido nas suas mesquinhas moradas; em que pelos cemitérios o orvalho se pendura do tôpo das cruzes e, sozinho, goteja das bordas das campas, em que só ele chora os mortos. As larvas da imaginação e o gear noturno afastam do campo-santo a saudade da viúva e do órfão, a desesperação da amante, o coração despedaçado do amigo. Para se consolarem, os infelizes dormiam tranqüilos nos seus leitos macios!... enquanto os vermes iam roendo esses cadáveres amarrados pelos grilhões da morte. Hipócritas dos afetos humanos, o sono enxugou-lhes as lágrimas!
       E depois, as lousas eram já tão frias! Nos seios do torrão úmido o sudário do cadáver tinha apodrecido com ele.
       Haverá paz no túmulo? Deus sabe o destino de cada homem. Para o que aí repousa sei eu que há na terra o esquecimento!
       Os mares pareciam naquela hora recordar-se ainda do rugido harmonioso do estio, e a vaga arqueava-se, rolava e, espreguiçando-se pela praia, refletia a espaços nas golfadas de escuma a luz indecisa dos céus.
       E o animal que ri e chora, o rei da criação, a imagem da divindade, onde é que se escondera?
       Tremia de frio em aposento cerrado, e sentia confrangido a brisa fresca do norte que passava nas trevas e sibilava contente nas sarças rasteiras dos maninhos desertos.
       Sem dúvida, o homem é forte e a mais excelente obra da criação. Glória ao rei da natureza que tiritando geme!
       Orgulho humano, qual és tu mais — feroz, estúpido ou ridículo?


2


       Não eram assim os Gôdos do oeste 20 quando, ora arrastando por terra as águias romanas, ora segurando com o seu braço de ferro o império que desabava, imperavam na Itália, nas Gálias e nas Espanhas, moleradores e árbitros entre o Setentrião e o Meio-Dia:
       Não eram assim, quando o velho Teodorico, semelhante ao urso feroz da montanha, combatia nos campos cataláunicos  rodeado de três filhos, contra o terrível Átila  e ganhava no seu último dia a sua última vitória:
       Quando a larga e curta espada de dois gurpes se convertera em foice da morte nas mãos dos Gôdos, e diante dela retrocedia a cavalaria, dos Gépidas, e os esquadrões dos Hunos vacilavam, dando roucos gritos de espanto e terror.
       Quando as trevas eram mais, cerradas e profundas viam-se à claridade das estrêlas relampaguear as armas dos Hunos, volteando em redor dos seus carros, que lhes serviam de valos. Como o caçador espreita o leão tomado no fojo, os Visigodos os vigiavam esperando o romper da alvorada.
       Lá, o sôpro gelado da noite não fazia confranger nossos avós debaixo das armaduras. Lá, a neve era um leito como outro qualquer, e o rugir do bosque, debatendo-se nas asas da tempestade, era uma cantilena de repouso.
       O velho Teodorico caíra atravessado por uma flecha despedida pelo ostrogodo Handags, que, com os da sua tribo, combatia pelos Hunos.
       Os Visigodos viram-no, passaram avante e vingaram-no. Ao pôr do sol, Gépidas, Ostrogodos, Giros, Burgundos, Turíngios, Hunos, misturados uns com outros, tinham mordido a terra cataláunica, e os restos da inumerável hoste de Átila, encerrados no seu acampamento fortificado, preparavam-se para morrer; porque Teodorico jazia para sempre, e o franquisque dos Visigodos era vingador e inexorável.
       O romano Ácio teve, porém, piedade de Átila e disse aos filhos de Teodorico: — ide-vos, porque o império está salvo.
       E Torismundo, o mais velho, perguntou a seus dois irmãos Teodorico e Frederico: — está acaso vingado o sangue do nosso pai?
       De sobejo o estava êle! Ao aparecer do dia, por quanto os olhos podiam alcançar, não se viam senão cadáveres.
       E os Visigodos deixaram entregues a si os romanos, que, desde então, não souberam senão fugir diante de Átila.
       Quem contará, porém, as vitórias de nossos avós durante três séculos de glória? Quem poderá celebrar o esfôrço de Eurico, de Teudes, Leovigildo; quem saberá tôdas as virtudes de Recaredo e de Vamba?
       Mas, em qual coração resta hoje virtude e esfôrço, no vasto império de Espanha?


3


       [Monólogo Interior]  — Era, pois, numa destas noites como a que desceu do céu depois do desbarato dos Hunos; era numa destas noites em que a terra, envôlta no seu manto de escuridade, se povoa de terrores incertos; em que o sussurro do pinhal é como um côro de finados, o despenho da torrente como um ameaçar de assassino, o grito da ave noturna como uma blasfêmia do que não crê em Deus.
       Nessa noite fria e úmida, arrastado por agonia íntima, vagava eu às horas mortas pelos alcantis escalvados das ribas do mar, e enxergava ao longe o vulto negro das águas balouçando-se no abismo que o Senhor lhes deu para perpétua morada.
       Por cima da minha cabeça passava o norte agudo. Eu amo o sôpro do vento, como o rugido do mar:
       Porque o vento e o oceano são as duas únicas expressões sublimes do verbo de Deus, escritas na face da terra quando ainda ela se chamava o caos.
       Depois é que surgiu o homem e a podridão, a árvore e o verme, a bonina, e o emurchecer.
       E o vento e o mar viram nascer o gênero humano, crescer a selva, florescer a primavera; — e passaram, e sorriram-se.
       E, depois, viram as gerações reclinadas nos campos do sepulcro, as árvores derribadas no fundo dos vales, sêcas e carcomidas, as flôres pendidas e murchas pelos raios do sol do estio;
— e passaram, e sorriram-se.
       Que tinham êles, de feito, com essas existências, mais passageiras e incertas que as correntezas de um e que as ondas buliçosas do outro?


4


       O mundo atual nunca poderá entender plenamente o afeto que, vibrando-me dolorosamente as fibras do coração, me arrastava para as solidões marinhas do promontório, quando os outros homens nos povoados se apinhavam à roda do lar aceso e falavam das suas mágoas infantis e dos seus contentamentos de um instante.
       E que me importa a mim isso? Virão um dia a esta nobre terra de Espanha gerações que compreendam as palavras do presbítero.
       Arrastava-me para o êrmo um sentimento íntimo, o sentimento de haver acordado, vivo ainda, dêste sonho febril chamado vida, e de que hoje ninguém acorda, senão depois de morrer.
       Sabeis o que é êsse despertar de poeta?
       É o ter entrado na existência com um coração que trasborda de amor sincero e puro por tudo quanto o rodeia, e ajuntarem-se os homens e lançarem-lhe dentro do seu vaso de inocência lôdo, fel e peçonha e, depois, rirem-se dêle:
       É o ter dado às palavras — virtude, amor, pátria e glória — uma significação profunda e, depois de haver buscado por anos a realidade delas neste mundo, só encontrar aí hipocrisia, egoísmo e infâmia:
       É o perceber à custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar descrer, o experimentar desenganar-se, e a esperança nas coisas da terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo tênue que ondeia em horizonte aquém do qual está assentada a sepultura.
       Este é o acordar do poeta. Depois disso, nos abismos da sua alma só há para mandar aos lábios um sorriso de desprêzo em resposta às palavras mentidas dos que o cercam, ou uma voz de maldição desabridamente sincera para julgar as ações dos homens.
       É então que para êle há cinicamente uma vida real — a íntima; cinicamente uma linguagem inteligível — a do bramido do mar e do rugido dos ventos; i’rnicamente uma convivência não travada de perfídia — a da solidão.


5


       Tal era eu quando me assentei sôbre as fragas; e a minha alma via passar diante de si esta geração vaidosa e má, que se crê grande e forte, porque sem horror derrama em lutas civis o sangue de seus irmãos.
       E o meu espírito atirava-se para as trevas do passado.
       E o sôpro rijo do norte afagava-me a fronte requeimada pela amargura, e a memória consolava-me das dissoluções presentes com a aspiração suave do formoso e enérgico viver de outrora.
       E o meu meditar era profundo, como o céu, que se arqueia imóvel sôbre nossas cabeças; como o oceano, que, firmando-se em pé no seu leito insondável, braceja pelas baías e enseadas, tentando esboroar e desfazer os continentes.
       E eu pude, enfim, chorar.


6


       Que fôra a vida se nela não houvera lágrimas?
       O Senhor estende o seu braço pesado de maldições sôbre um povo criminoso; o pai que perdoara mil vêzes converte-se em juiz inexorável; mas, ainda assim, a Piedade não deixa de orar junto dos degraus do seu trono.
       Porque sua irmã é a Esperança, e a Esperança nunca morre nos céus. De lí ela desce ao seio dos maus antes que sejam precitos.
       E os desgraçados na sua miséria conservam sempre olhos que saibam chorar.
       A dor mais tremenda do espírito quebrantam-na e entorpecem-na as lágrimas.
       O Sempiterno as criou quando nossa primeira mãe nos converteu em réprobos: elas servem, porventura, ainda de algum refrigério lá nas trevas exteriores, onde há o ranger dos dentes.
       Meu Deus, meu Deus! — Bendito seja o teu nome, porque nos deste o chorar.









Fragmentos de: Eurico o Presbítero.
Capítulo três, páginas 37 à 43; capítulo quatro, páginas 44 à 50.